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COLUNISTA » Rubens Rocha

Rubens Rocha

A Velha Matriz

18/07/2013

A Velha Matriz

No fim do século XVII, em diante, Alvará de sesmaria das terras de Tucano, foi concedido a João Rodrigues Barroso.

 

Em 1833 as terras da antiga fazenda denominada Aldeia, sita no sertão de Tucano, foram compradas pelo 6º conde da ponte, D. João Saldanha da Gama de Melo e Torres, que governou a Bahia durante o período de 1805 a 1810.

 

Nessa época os oásis que pertenciam aos limites da fazenda Aldeia, eram habitados possivelmente por índios Kariris ou Kiriri.

 

Em 1727, Tucano estava ainda na condição de simples Aldeia de índios catequizados por missionários Jesuítas pertencente ao município de Itapicuru de Cima, cujo território faz parte do vale do rio Itapicuru.

 

Outros missionários, em  missões por estas paragens edificaram uma capela de madeira com a invocação de Santana e Santo Antonio de Tucano, ficando esta capela subordinada á paróquia de Mirandela.

 

A aldeia de Tucano, desenvolveu-se e civilizou-se sob a influência catequista e tornou áreas de arraial ou povoado, tendo disto resultado a criação do distrito, Santana e Santo Antonio do Tucano, em 1754.

 

Segundo carta enviada ao Dr. Baltazar da silva Lisboa, por volta de 1814, sobre a Matriz da freguesia de Santana e Santo Antonio do Tucano criada em 1754, no governo do arcebispo D. José Botelho de Matos, e cujo primeiro vigário foi o padre Francisco Cabral de Souza, diz o autor, missionário capuchinho Frei Apolônio de Todi, restaurador da mesma matriz ( in Memórias Históricas e Políticas da Bahia” Tomo V);

 

“Cheguei à freguesia do Tocano (sic), aonde achei a igreja que estava para cair porque feita de madeira, estava cerceada por baixo; a encostei e fiz missão. No tempo da missão chega um despacho do Sr. Arcebispo de Santa Escolástica, de acudir á necessidade desta igreja. No fim da missão falei, e vendo os fregueses prontos a concorrer, nomeei o depositário e quatro procuradores, e logo com o povo principiei a ajuntar pedra, e tudo mais que precisasse para se fazer de pedra e cal. Estando quase tudo pronto, queria chamar os pedreiros, e aqui se offereceu  o reverendo vigário, que era um padre Antonio Carvalares (sic), a ir buscar os pedreiros, e assistir a factura della, e que eu podia prosseguir as missões; eu respondi que estava muito bom, e logo parti para missionar, porém o reverendo vigário não falou a verdade; todo o dia buscava pedreiros sem  buscá-los, e assim passou o primeiro anno, assim o segundo, assim o terceiro e assim ia passando o quarto, quando Deus castigou com uma morte súbita, tanto o vigário  como ao depositário porque como vinhão aparecendo as esmolas da igreja, tomavão para comprar sítios, fazer suas fazendas e não a igreja. Me derão aviso do acontecido, nomeei o outro depositário, que logo chamou pelos pedreiros, e foi fazendo a nova igreja, e eu prosseguir nas missões até chegar ao Bonfim de Jacobina”... Pelo apurado teve inicio as obras da nova igreja Matriz de 1791 a 1795 em diante.

 

As imagens dos padroeiros Santana e Santo Antonio foram mandadas fazer pelo próprio Frei Apolônio de Todi na cidade do salvador.

 

Quero aqui abrir um parêntese para falar de corrupção, palavra que atualmente está em moda e que há mais de duzentos anos na reconstrução da velha igreja Matriz de Tucano, como vimos segundo o Frei Apolônio, o vigário Antonio Carvalhares (sic) e o depositário nomeados por ele, desviaram as esmolas dos fieis que eram para pagar os pedreiros, e começaram a comprar, sítios, fazendas, gados, etc.

 

Como naquela época não havia CPI, nem Tribunal Superior de Justiça, tanto o padre como o depositário foram vitimas da Justiça Divina, com uma morte súbita.

 

O certo é que durante esse período até hoje, a velha igreja Matriz tem sofrido constantes intervenções grosseiras, descaracterizando a sua forma primitiva a pesar de não ser uma construção arquitetônica religiosa colonial suntuosa, e apresentar uma fachada simples  de alvenaria, mesmo assim deveria ter sido melhor preservada.

 

Quanto a sua simplicidade, podemos dizer que além dos recursos financeiros desviados na época, e por ser uma região pobre em comparação com outras, principalmente o recôncavo baiano, impediram-no de ser um monumento suntuoso.

 

Quando eu era Técnico em Assuntos Culturais do IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão ligado ao Ministério da Cultura, há uns trinta anos, cheguei a solicitar o seu tombamento, porém depois de uma vistoria e análise dos técnicos do órgão, infelizmente a igreja não pôde ser tombada, já estava quase toda descaracterizada: Altar Mor alterado, forro do teto com pintura antiga, altares laterais retirados, púlpitos (dois) (tribuna para pregação religiosa), localizados na nave da igreja, no mesmo nível do coro, também retirados, grade de madeira separando o corpo da igreja e o altar mor, já não existia mais, telhado de eternit.  

 

O sino primitivo, segundo os mais antigos, quando tocado chamando os fiéis para a missa, procissão, missão e outros eventos religiosos, era ouvido no Marizá, Creguenhem e toda redondeza de Tucano; Lindo!.. Que beleza!, as pessoas andando a pé, a cavalo, carro de bois, etc; atendendo o seu chamado, já não era o mesmo; até o piso da igreja, com as lápides (pedras com inscrições) sobre os túmulos das pessoas da comunidade ali enterradas, que viveram Tucano, prestando relevantes serviços, foi retirado.

 

Vejamos:

Cônego Manoel Martins de Almeida nasceu em 07 de janeiro de 1834 e faleceu em 18 de setembro de 1921. Foi vigário desta freguesia, e exerceu por vários anos o cargo de Intendente Municipal, tendo deixado serviços prestados à igreja e a Pátria por mais de meio século: Comendador Coronel Domingos Sales Velho.1892 tendo sido presidente da Câmara de Vereadores de 1887 a 1889; Dr. Américo Alves dos Passos – 1815-1817, foi Presidente do Conselho Municipal; João Manoel Bastos - 06/11/1846 -11/11/1921. Foi vereador e Vice – Presidente da Câmara  de 1887 a 1889; D. Joaquina Martins de Almeida -15/09/1882 – 10/10/1926, esposa do Dr. Theotônio Martins de Almeida; tenente João Vilhares Nonato Borges – 07/05/1857-02/05/1904; Catão Alves Passos -1848-1903; D. Maria Bastos do Prado -28/11/1896-31/12/1913, e tantos outros. Essas Lápides encontram-se hoje à disposição de seus descendentes e curiosos, atrás do altar-mor da igreja Matriz de Senhora Santana.

 

Na metade do século XIX, foi Centro do Décimo Distrito Eleitoral, que compreendida as freguesias de Santa Teresa do Pombal, Nossa Senhora do Livramento do Barracão, Nossa Senhora de Nazareth do Itapicuru de Cima, Nossa Senhora da Conceição da Nova Soure, Nossa Senhora do Amparo da Ribeirinha   do “Pau Grande”, Coração de Jesus de Monte Santo e Santana de Santo Antonio do Tucano.

 

Reunia-se o colégio eleitoral na igreja Matriz da Imperial Vila de Tucano, para as eleições de deputados à Assembléia Legislativa, suplentes e senadores, sob a presidência do comandante superior (Na época José Dantas Itapicuru). 

 

Muitos foram os cidadãos que se elegeram deputados e senadores por este  distrito de Tucano.

 

Por tudo isso a Velha Matriz deixou de ser protegida por lei, cabendo agora, a nós outros contarmos a sua história, com a finalidade de informar as novas gerações o passado de forma que o presente seja melhor entendido, a fim de que tenhamos um futuro melhor assegurado.

 

Na oportunidade sugerimos às autoridades locais o tombamento municipal, como uma maneira de preservar o que ainda resta de original, como as imagens de Senhora Santana e Santo Antonio, esculpidas em madeira, a pia Batismal (de pedra lioz), e algumas peças religiosas de arte da velha Matriz.