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COLUNISTA » Rubens Rocha

Rubens Rocha

A sociedade tucanense

04/11/2013

A sociedade tucanense

Nas décadas 40, 50 e 60, a sociedade tucanense estava dividida em três grupos políticos. Um grupo simpatizante com o PRP – Partido de Representação Popular-, outro com a UDN – União Democrática Nacional -, e o do PSD – Partido Social Democrático. Em época de campanha política, cada um seguia a sua corrente ideológica e não se misturava. Um fato curioso é que passado esse período eleitoral, ganhadores e perdedores voltavam a formar um só grupo, acabando e esquecendo os dissabores, unidos em uma só família por viverem em uma cidade pequena onde quase todos são parentes. Alas femininas formadas por senhoras e senhorinhas marcaram por muito tempo o cenário político de tucano.

 

Outra curiosidade da nossa sociedade eram as festas, principalmente os carnavais (que belas festas!), haviam três Clubes Sociais: o 5 de Agosto mais elitizado, o “Boca Preta” ou “Furioso” como assim era chamado pelos opositores; e o dos artistas, já que essa classe não tinha acesso aos outros dois.

 

Até certo ponto essa rivalidade era boa para os jovens da época que não se ligavam muito a essa politicagem e desfrutavam dos três clubes independentes da sua classe social.

 

No período carnavalesco, os clubes eram ornamentados a capricho pelas senhoras e senhorinhas com serpentinas, Pierrot, confetes eram atirados aos punhados nos foliões e era permitido o uso do lança-perfume “rodouro” que dava um charme todo especial aos carnavais, sendo depois proibido pelo presidente Jânio Quadros. Não podemos esquecer os mascarados. Bons tempos aqueles! Os bailes dos adultos e os bailes infantis eram embalados por várias orquestras  sendo a preferida a de “João Neves”.

 

Nos bailes do Clube Cultural 5 de Agosto, havia como era chamado “O Sereno” uma espécie de camarote (sem conforto), daquelas pessoas que não tinham acesso à   festa e se comprimiam em pé, em frente aos janelões do clube e assistiam à festa, participando no dia     seguinte   de uma resenha sobre o que acontecera dentro da sociedade, vestido mais bonito ou fantasias, elegância, começo de namoro etc.

 

O Clube Cultural 5 de Agosto, fundado em 1934, foi se popularizando a partir da administração do saudoso Egídio Manuel de Nascimento, homem de influência política, prestigiado pelo seu compadre governador Juracy Magalhães de quem privava da sua amizade.

 

Egidinho, como era conhecido contrariando os sócios mais velhos,  fundadores, normas e estatutos regidos pelo clube, passou a aceitar nos seus quadros pessoas simples, mais humildes da  nossa sociedade, quebrando assim um velho tabu do Clube 5 de Agosto.

 

Egidinho teve o mérito de ser o  primeiro presidente a trazer um trio elétrico para o carnaval de Tucano, em 1961, improvisando um caminhão seu, retirando as peças laterais e do fundo da carroceria adaptando-o para funcionar como trio todo enfeitado causando espanto, admiração e alegria para todos os tucanenses coisas jamais vistas na nossa terra.

 

Os jovens de ontem acham que os bons tempos eram aqueles; os jovens de hoje acham que os bons tempos são os atuais.

 

O certo é que já chegou o momento de revivermos os bons tempos como o que está acontecendo com o grupo da melhor idade de Tucano, com os bailes carnavalescos, as serestas, as festas juninas no espaço da ex Escola de Artes e Ofícios Pe. José Gumercindo.

 

O Rádio Club Tucanense depois Clube Cultural 5 de Agosto, era um centro de cultura da cidade, pois nele a sociedade se reunia não só em festas dançantes como também em outros eventos, formaturas palestras como as do Profº. Pedro Calmon – candidato ao governo da Bahia – e o dr. Waldir Pires. Muitas eleições foram ali apuradas, além de ter sido palco de peças teatrais, lançamentos de livros, programas de calouros, sessões de cinema, aniversários. Era dotado de biblioteca, discoteca e de um serviço de alto-falantes, com transmissão para as principais praças de Tucano, de músicas, propagandas  comerciais, serviço de utilidade pública. As belas crônicas de Demóstenes e o momento de reflexão na hora da Ave-Maria, eram o ponto alto da programação a qual a população parava para ouvi-las ás 18:00h.

 

O Clube Cultural 5 de Agosto serviu também de cenário para a inauguração da energia elétrica vinda de Paulo Afonso, no ano de 1968. Um palanque foi armado em frente, para receber políticos que no passado foram aqui votados e lutaram para o progresso de Tucano. Embora de correntes ideológicas diferentes, integrantes como o deputado Federal Rubem Nogueira e o  dr. Oliveira Brito do extinto PSD, um liberal democrata, agora juntos no mesmo palanque no memorável dia histórico de inauguração de energia elétrica, num gesto de gratidão pelas votações expressivas que aqui tiveram. 

 

O Clube também teve o privilégio de ter adquirido o primeiro rádio  à bateria, numa caixa de madeira em forma abobadada, e no dia da sua inauguração Tucano parou para ouvir o locutor César Ladeira, falando diretamente do Rio de Janeiro parabenizando a todos pelo grande acontecimento. Foi  a grande novidade do momento. Diante de tudo isso podemos dizer que o Clube 5 de Agosto parecia um centro cultural e era mesmo!

 

Os sócios mais antigos até hoje sentem saudades das festas a rigor: terno azul-marinho ou de linho branco, gravata borboleta. O que mais chamava a atenção era sua organização, disciplina e respeito entre as famílias. O presidente dr. Osvaldo Assunção foi um dos melhores que o clube já teve, com a sua postura exemplar.

 

A sua transferência, hoje  para a ABB, causou aos mais antigos um sentimento  de saudosismo. Não se sabe se foi uma atitude correta ou se foi o progresso que chegou de repente a Tucano, ou se tinha uma outra solução para mantê-lo no mesmo lugar como centro cultural. O seu julgamento ficará a cargo do tempo e das pessoas.